domingo, 30 de outubro de 2016

A Voz dos Imbecis

          A internet é hoje, sem sombra de dúvida, o meio de comunicação mais popular  e o mais completo do mundo. Entre inúmeras vantagens, o acesso a essa mídia possibilita que seu usuário seja, além de público, o próprio astro do espetáculo. Todos têm a chance de  divulgar suas ideias e opiniões e mostrar seus  talentos para um público bem maior que apenas amigos e familiares Isso graças às redes sociais como o Facebook ou canais de vídeos como o YouTube .
No entanto, nem tudo são flores na internet e como disse Umberto Eco, poucos meses antes de sua morte, “as redes sociais dão o direito à palavra a uma legião de imbecis que antes eram ouvidos apenas nos bares após tomarem umas e outras, sem prejudicar a coletividade”.
Concordo com o autor de “O Nome da Rosa”, afinal  ao abrir a porta para os talentosos, a internet não a fecha, possibilitando assim a entrada dos imbecis que encontraram um meio de levarem suas idiotices para além dos ouvidos de seus amigos de copo Basta criar uma conta no Facebook, outra no Twitter e mais uma no YouTube e qualquer imbecil está pronto para jogar a merda no ventilador.
O imbecil da internet é “conhecedor” de todos os assuntos e está convicto que suas opiniões são extremamente relevantes para a sociedade, por isso se sente na obrigação de compartilhá-las. Após uma rápida pesquisa no Google, ele já se sente capaz de elogiar e descer o pau em filmes, músicas e espetáculos, muitos dos quais o imbecil não conhece mais que o título. Embora seja um excelente crítico de arte, suas grandes paixões são Teologia, Sociologia, Filosofia e, principalmente, Política.
Como não quer ser um alienado e, muito menos, ser chamado de isentão, o “incrível colunista” decide sua posição política no “cara e coroa”. Com um vasto conhecimento wikipédico , o analista político das redes sociais não analisa porra nenhuma, simplesmente defende, calorosamente, sua posição política que foi escolhida por uma moeda de cinquenta centavos.
Outra característica dos doutores das redes sociais é o amor por debates. Imbecis oponentes se encontram geralmente no You Tube, e se agridem com os palavrões da atualidade: bolivariano, bolsominion, neoateu toddynho, seguidor do deus das lacunas, esquerdopata, coxinha, massa de manobra. Sinto até saudades dos palavrões antigos. Porém, não são apenas xingamentos que há nesses debates, afinal todos esses sábios são graduados, mestrados e doutorados pela incrível Universidade Wikipédia. Sendo assim, através dos debates, os imbecis têm a oportunidade de expor seus conhecimentos sobre diversas áreas do saber, principalmente Teologia, Filosofia, Física, História e Política. O pior é que vão conquistando seguidores, que também passam a divulgar suas ideias e conhecimentos adquiridos com seus mestres. É a proliferação da desinformação e da imbecilidade.
Como os imbecis estão usando o mesmo meio de comunicação que aqueles que realmente sabem o que dizem, fica difícil discernir quem é quem sem avaliar o que está sendo dito. Então, pesquise, compare e julgue  o que lê e ouve ou corra o risco de se tornar eco da voz dos imbecis.

Até a próxima
Marcelo Maia Gomes
Licenciado em Filosofia pelo Ceuclar


segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Conhecimentos Linguísticos de um Sábio-Burro


Existe coisa pior que conversar com um burro? Pode parecer que não, mas se tem algo que me irrita mais que uma conversa com um estúpido ignorante é um diálogo com um burro que se considera sábio. O “sábio-burro” é o cara que aprende alguma coisa na internet, na televisão ou em qualquer outra mídia e fica ansioso para demonstrar seu conhecimento, afinal quer mostrar que não é tão imbecil como os outros pensam. No entanto, o sábio-burro não sabe que há hora e lugar certo para tudo, inclusive para expor o que se sabe. São tantas besteiras que saem da boca de um desses sujeitos que apenas um terço delas já seria assunto para um livro, por isso nos parágrafos seguintes apresentarei apenas alguns “conhecimentos” etimológicos do burro-sábio.
Para começar, o próprio termo que uso aqui para defini-los já é um bom motivo para um sábio-burro  querer mostrar seus “conhecimentos” linguísticos.  Para aparecer e por se achar inteligente, começa a dissertar sobre o animal quadrúpede:
“Há há há!—o sábio-burro adora rir antes de suas explicações intelectuais— o burro é um animal inteligentíssimo, pois se souber que há um perigo adiante, ele não prossegue em sua caminhada.”  É claro que até um sábio-burro sabe que a palavra “burro” é usada como um termo pejorativo  para se referir a pessoas com pouco conhecimento em uma ou mais área. Portanto, sua intenção não é instruir, e sim aproveitar a oportunidade para mostrar sua “grande sabedoria”, mas nem sequer sabe que os ignorantes como ele são chamados de burros porque empacam em uma ideia, o que os impedem de ultrapassar o nível intelectual em que se encontram.
Irritante mesmo é quando o sábio-burro decide mostrar seu conhecimento sobre a origem das palavras, mas não com a intenção de satisfazer a curiosidade de alguém, e sim porque quer refutar um argumento ou, como já foi dito anteriormente, para mostrar que é o sabedor de tudo.  Se ele fica sabendo que uma pessoa não crê em divindades, não hesita em perguntar qual a religião de tal pessoa só para ouvir a palavra “ateu” e começar com sua aula de etimologia:
“Há há há!  A palavra “ateu” vem do Grego “atheos” que significa " o que nega e abandona os deuses". Sendo assim, se você nega ou abandona um deus significa que você acredita em sua existência, pois como negaria ou abandonaria o que não existe?”
Por falar em religião, o nosso “amigo sábio” também não perde tempo quando escuta tal palavra e já vem com aquele  blá blá blá de que o termo tem origem em “religare”, que em latim quer dizer religar, reatar. Ainda no campo religioso, ele vai dizer que você não frequenta igreja, pois a igreja é a própria pessoa, afinal ela tem origem na palavra grega "ekkyesia" que significava simplesmente um ajuntamento do povo. Haja paciência!
O que esse “inteligente” ignora é que a linguagem é algo dinâmico e que com o tempo as palavras adquirem novas formas, novos significados e suas origens não anulam o que elas expressam posteriormente.

Controle-se quando estiver próximo a um desses “etimólogos” e um de seus dedos do pé bater em um móvel, porque se você gritar aquele palavrão, certamente irá ouvir que “ o que você disse é uma caixinha redonda usada para guardar rapé”.

Até a próxima.




Marcelo Maia Gomes
Licenciado em Filosofia pelo Ceuclar

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

O Isentão



Desde criança aprendemos que nossas atitudes são boas ou são más, certas ou erradas,aquilo que temos se não é bonito, é feio; se não amo algo, significa que o odeio. Crescemos com essa ideia de que há apenas duas maneiras de se ver algo. Isso se chama “polaridade”.
Porém, há um imenso continente de opiniões entre o bem e o mal, o feio e o belo  e um largo oceano de sentimentos entre o ódio e o amor, a desgraça e a felicidade, mas muitos preferem chamar de muro àquilo que não é polo, por isso dizem que quem fica fora de um deles está em cima do muro, ou como se diz atualmente no Brasil: “ é o isentão”.
O isentão é um termo pejorativo usado para definir  alguém que não se rotula “de direita” e nem “de esquerda”.  Não apoia a corrupção do PT, mas também não é seduzido pelos discursos morais da família Bolsonaro¹. Ao mesmo tempo, o isentão tem algumas opiniões que são compatíveis com a “direita” e já outras que estão de acordo com  a “ esquerda”.  Poderíamos, então, chamá-lo de um sujeito sem personalidade própria ou de “Maria vai com as outras”?  Ao contrário, afinal ele não se sente obrigado a aceitar ou rejeitar uma opinião apenas por fidelidade a uma ideologia e isso o torna muito mais capaz de avaliar o que está sendo proposto para o país
Apesar do termo "isentão" representar o que eu disse no parágrafo anterior, os "engajados"  o usam para dizer que quem não está em nenhum dos polos é alienado e omisso aos assuntos políticos, afinal a polaridade não permite a escolha de apenas alguns bombons, mas obriga que se escolha entre levar todos da caixa ou não comer nenhum.

¹Não estou dizendo que a esquerda e a direita brasileiras têm como representantes apenas PT e Bolsonaros,respectivamente. Apenas os citei como exemplos de opiniões antagônicas.

Até a próxima.


Marcelo Maia Gomes
Licenciado em Filosofia pelo Ceuclar

domingo, 19 de abril de 2015

Máscaras Sociais

            Durante a semana, acordo às 7 da manhã e saio ás 8 para dar aulas particulares. No caminho, cumprimento minha vizinha que está varrendo a calçada de sua casa e, algumas vezes, paro para conversar um pouco com ela. Prossigo na minha caminhada, saudando algumas crianças que já estão brincando na rua. Chego à casa de meu primeiro aluno, filho de evangélicos. Saúdo-os e inicio a aula de reforço. Pergunto quais as dificuldades e na medida do possível, vou tentando solucioná-las. Por serem evangélicos, policio-me ao máximo no meu modo de agir e falar. Uma hora depois, dirijo-me à casa de outra aluna, de família católica. Na parede e na estante, quadros  e imagens de santos. Ao contrário da primeira contratante, a segunda é bem comunicativa e  até compartilhamos alguns assuntos pessoais. Ás 11,volto pra casa, ligo meu  aparelho de som e ouço as músicas que gosto, sempre cantando a minha maneira. De repente, o celular toca; ou é minha sobrinha ou é uma amiga do Rio. Para cada uma delas, tenho um tipo diferente de conversa.
Até aqui, descrevi várias fases da minha vida, ocorridas em pouco mais de cinco horas. Para cada uma dessas fases, há uma máscara diferente. No  decorrer da minha vida, já usei, uso e usarei muitas outras; caso contrário, terei que viver isolado em uma redoma.
 Já ouvi, não raras vezes, algumas pessoas dizendo que demonstram o que realmente elas  são. Eu fico me perguntando: o que é demonstrar o que realmente se é? Seria uma pessoa totalmente desnuda de máscaras sociais? E isso é possível? Talvez essa possibilidade tenha existido nos primórdios da humanidade, quando o homem, no seu estado de natureza ,seguia apenas seus instintos básicos para a sobrevivência.
                Desde que o homem saiu de seu estado natural para o estado de civilização, surgiu a necessidade de se usar máscaras. Assim como há uma roupa para cada ocasião, há também um tipo de personalidade(máscara) para cada situação ,local e pessoa. Além das nossas características psicológicas e físicas já formadas pelo tempo, criamos características momentâneas para nos apresentarmos perante o  outro.  São as máscaras sociais, que vestimos para esconder o nosso natural e nos proteger do natural do outro. 
                A máscara social é uma maneira do eu refletir  para o outro o que se vê nele, causando uma familiaridade entre dois ou mais estranhos.  Um homem comum usará a máscara de  cliente de um banco para conversar com o gerente  deste banco . Fora do banco, em um bar com amigos usará outra máscara e em um consultório médico se vestirá de paciente .Da mesma forma, o gerente do banco ,o médico e os amigos boêmios usarão diversas máscaras sociais, dependendo da situação e da pessoa com quem estão relacionando
Existem diversos seres  em nós ,que vão surgindo de  acordo com as situações . Há o ser interno, escondido pela máscara social, há o ser visto pelo outro e o ser que o eu se vê no outro. Da mesma forma, o outro depende do eu para saber que tipo máscara irá usar.
 Então, nunca somos verdadeiros? Ao contrário, somos vários verdadeiros. Dizer que alguém não  tem personalidade leva em conta um conceito do senso comum e não tem nenhum fundamento científico ou filosófico.  Dizer que alguém não tem personalidade é negar as máscaras sociais  e se afirmar como alguém que anda com uma radiografia psicológica mostrando para todos o que realmente é; mas, afinal, o que realmente somos?
Se alguém me pergunta quem eu sou ,tenho várias respostas: “Sou Marcelo, filho de Fortunato e Célia, licenciado em Filosofia, poeta, blogueiro, pai do Klaus, tio da Tatá, apaixonado por Fulana, fã do Pink Floyd, cliente de um banco, freguês de um supermercado, convidado de uma festa, espectador de uma peça, etc. 
São várias respostas para uma pergunta só, várias definições para Marcelo Maia Gomes.  Entretanto, qual dessas é a minha PERSONALIDADE sem máscara? Qual dessas personalidades não foram formadas a partir do meu convívio com o outro e por estar diante de uma situação?
Não há resposta para isso, pois todas as personalidades são influenciáveis e adaptáveis ao momento; todas elas não passam de máscaras de conveniência. Mesmo, aquele que diz  expor  o que há no seu interior, depende do outro para essa exposição.
Para Sartre, o outro é o espelho para o indivíduo e a partir dessa intersubjetividade definimos nosso eu de acordo com a situação ,momento e local. O outro que está diante de mim influencia o meu eu. Se estou diante de uma pessoa religiosa ,minha consciência prevê as consequências de eu me assumir como um ateu e, da mesma maneira, o religioso se prepara interiormente para tentar me convencer da existência de Deus. Escolhemos, então, que máscaras usaremos; a do debate sobre a existência ou não de um ser supremo ou discursaremos sobre futebol. Ou seja, o eu  não se define sem o outro.
A  partir do outro, o indivíduo se torna vários eus, que muitas vezes entram em conflitos, fazendo com que nossa consciência nos acuse de hipócritas. Porém, o que é a hipocrisia, senão uma máscara social, que vestimos para  protegermos  e escondermos o nosso Eu?  Então, o que na verdade é o EU? Um ser dotado de características próprias ou um ser refletindo a imagem do outro, que por sua vez reflete a imagem do eu? Há uma existência isolada ou toda existência é dependente da outra?

O EU é a própria pessoa, a IDENTIDADE que se resguarda atrás de várias personalidades. O EU é a parte intacta do ser humano, a qual o outro só deve conhecer o mínimo possível. Tudo que o outro conhece do EU são os eus, vestidos de máscaras sociais. Eu sou o estranho para o outro e ele é o estranho para mim, por isso usamos disfarces para nos parecermos familiares um ao outro.

                                                         Abraços
                                     Marcelo Maia
Licenciado em Filosofia pelo CEUCLAR

quarta-feira, 18 de março de 2015

Justiça: um sentimento individual ou uma realidade universal?

    A palavra Justiça nos remete a dois conceitos: um concreto e um abstrato. O conceito concreto é a imagem de um tribunal,composto por um juiz,advogado ,promotor,júri e réu. Já,o abstrato vai mais além; é algo que não se vê,mas se sente e que,muitas vezes,é contrário à justiça dos tribunais e da lei. Muitas vezes, achamos que a lei está sendo injusta,pois não agiu como queríamos. Na tragédia grega Antígona,de Sófocles, os dois irmãos da protagonista se matam mutuamente na disputa pelo trono de Tebas. Com isso,Creontes,tio de Antígona, assume o trono e estipula o sepultamento dos sobrinhos Etéocles e Polinices.O primeiro recebe um sepultamento digno,enquanto o corpo do segundo é jogado em um local para que as aves de rapina e os cães deem conta dele. A irmã dos mortos não concorda com a decisão do tio e sepulta o irmão e,por isso, é condenada morte.
Na obra de Sófocles,encontramos dois conceitos de Justiça; o da lei e o individual. Creontes ,que representa a lei,acha justo que o corpo de Polinices não seja sepultado,pois o sobrinho se aliou aos inimigos de Tebas para vencer Etéocles. Antígona acha que decreto do tio é injusto e contrário às leis divinas. A justiça de Tebas se baseia no bem do Estado e a de Antígona se baseia em seus sentimentos,que ela acredita ser o mesmo dos deuses. Afinal,o que é Justiça?
Quando uma pessoa precisa de alguma coisa, ela vai a um estabelecimento e paga para que aquela mercadoria passe a ser sua. Se sai sem pagar(o que chamamos de furto ou de roubo,dependendo de como o objeto foi retirado), o estabelecimento tem um prejuízo  e  se não leva aquilo pelo que pagou, o prejudicado será o freguês. Semelhante é o sentimento de Justiça. Querer receber algo que possua o valor de algo que se deu. Se alguém acredita estar fazendo o bem, espera receber algo que tambem tenha o valor de bem. Quando alguém faz algo considerado como mal, espera-se que  receba,em troca,algo no valor de mal. Paga se o bem com bem e o mal com mal.Quando o valor do que se recebe não se equipara ao que foi dado ou há ausência do recebimento,surge o sentimento de injustiça. Mas,será que também não se sente injustiçado,o injusto por ser assim chamado? Será que ele também não pensa que está recebendo o mal no lugar do bem que deu? É bom frisar que nem sempre o Outro tem o mesmo conceito de bem que o Eu. Sendo assim, o sentimento de Justiça e o sentimento de Injustiça  podem até ser o mesmo para todos,mas os motivos que despertam esses sentimentos dependem do que é o conceito de bem e o conceito de mal para cada pessoa.
Sócrates foi condenado à morte por contrariar as leis de Atenas, e pouco antes de morrer o filósofo disse que poderia ter evitado a condenação se tivesse desistido da vida justa.Ele era o justo e injusta era a legislação que não estava de acordo com seus interesses.  Mas, não há legislação certa ou errada,justa ou injusta. Existem leis que que estão em harmonia com os desejos de um indivíduo ou de uma sociedade e leis contrárias a esses desejos. Antígona fez justiça ao sepultar o irmão, mas Creontes também estava fazendo justiça quando condenou a sobrinha à morte.Qual dos dois estava sendo justo e quem era o injusto? A resposta vai depender do conceito de bem e do conceito de mal de quem está respondendo.
 Muitas vezes a desarmonia entre as justiças social,indivíduail e legal gera uma sensação doentia de injustiça e a parte injustuçada impõe o seu Bem praticando atos violentos como linchamento, homicídio,genocídio,torturas física e psicológica, ofensa verbal, e até suicídio(pois há aqueles que se matam para que o injusto sinta o peso da culpa sobre si). Há também a violência que não se manifesta em ações,mas fica no pensamento daqueles que acreditam que não receberam o que lhe devem e esperam que um dia o injusto receba o Mal pelo mal. O injustiçado se tortura e se conforta na esperança de que outro recuperará o Bem que lhe é de direito. Não importa o que será esse outro; uma ou mais pessoas,uma força sobrenatural,lei do carma, um acidente,uma doença, uma desilusão ou o remorso. O que importa é que cada um receba o que lhe é devido; Mal por mal e Bem por bem. Termino com uma pergunta: sentimento de Justiça é sinônimo de sentimento de Vingança?

Abraços.

 Marcelo Maia Gomes
Licenciado em Filosofia pelo CEUCLAR

terça-feira, 3 de março de 2015

O Desespero

No meu texto anterior,sobre o tédio, eu falei sobre a busca  incessante do homem por um sentido na vida e sua frustração ao perceber que por mais que tente se preencher, ele viverá momentos vazios que,na verdade, é a essência natural de todo ser senciente. Esse encontro com sua própria natureza de Nada é o sentimento chamado “Tédio”, insuportável por todos nós por não aceitarmos que somos vazios.
Há um outro sentimento na vida do homem, contrário ao Tédio;o Desespero,que é a insuportalidade diante do “Algo” ou do Tudo. Não uso o termo para designar a falta de esperança, mas para denominar o momento em que o ser humano constata sua incapacidade diante do Algo ou do Tudo.
Sentimos o Desespero quando nos defrontamos com a presença incômoda( aquilo que nos perturba) ou com a ausência frustrante (quando  perdemos ou não conseguimos o que nos conforta). Essas duas formas são dependentes mútua, pois só queremos nos livrar de algo para conquistar  outro algo e vice-versa. O sentimento de Desespero tem um precursor chamado Incapacidade. Ao se sentir incapaz de solucionar seus problemas, o ser humano sente o peso do Desespero. 
Um homem casado e pai de três crianças sai cedo para procurar serviço.Vai em várias empresas e, em nenhuma delas, é contratado. Ele volta para casa  vencido pela sua incapacidade de conseguir algo que o conforta(emprego) para eliminar algo que o perturba ( miséria).
É bom frisar que, em alguns casos, a capacidade de se obter ou  de se livrar do algo está em si mesmo,mas no outro. Um homem que sai à procura de um serviço  não depende apenas de sua capacidade intelectual e física, mas também da aceitação do responsável pela contratação de funcionários .O outro é aquilo que impede ou permite  ao sujeito concretizar seu ideal, podendo ser outras pessoas, fenômenos da natureza,doenças,sentimentos e qualquer outra coisa que fique entre a ideia e a realização.
 O Desespero age de forma agressiva na mente de sua víima, exigindo dela uma atitude que o elimine,pois é um sentimento suicída que não se suporta. Enquanto o Tédio é imanente ao homem,o Desespero é o reflexo cruel do mundo externo que se aloja no mundo particular de cada pessoa,por isso o desesperado quer a eliminação dos fatores externos que lhe causaram o sentimento. Essa eliminação,muitas vezes,é a prática de atos como roubos,assassinatos,estupro,guerras e suicídio ou menos atrozes como bebedeiras,uso de drogas ilícitas,prazeres sexuais e,até mesmo,atos aparentemente sensatos como o ingresso em uma religião(ou apenas o apego ao sobrenatural),um novo relacionamento( no caso de uma rejeição amorosa),a troca de um emprego por outro,etc.Qualquer forma de eliminação externa do Desespero é irracional,independente de ser ou não atroz. O desesperado é o homem que se perde à noite em uma mata fechada e cheia de armadilhas. Na ânsia de escapar daquele local,ele caminha olhando apenas para frente e não olha para os lados nem para baixo ou para cima e de repente,cai em uma armadilha,que o impossibilita,ainda mais, de encontrar a saída.O homem perdido na mata que se acalma e espera o dia amanhecer para procurar a saída,olhando cuidadosamente para todos os lados, tem mais chances de chegar a estrada. 
O homem que,mesmo desesperado, aproveita dos seus escassos momentos de raciocínio terá mais chances de encontrar a solução e,menos chances de se arrepender de seus atos no futuro. O seu momento de raciocínio no Desespero se assemelha ao amanhecer na mata e ele deve aproveitar essa luz para sair dessa situação. Se ficar parado,a noite chega novamente e prolongará sua estadia no Desespero. Assim como a saída da mata está na própria mata e não na estrada(pois nesta está a entrada), a eliminaçao do Desespero está no próprio homem e não nos fatores externos(que são as entradas ). 
Abraços.

Marcelo Maia Gomes
Licenciado em Filosofia pelo CEUCLAR

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

O Tédio

Há momentos em que o tudo se manifesta na forma do nada. Ou seja,percebemos que qualquer coisa que fizermos não nos levará a lugar algum além do nosso vazio interior. É o tédio, que não nos ataca somente nos momentos de solidão ou quando não temos nada para fazer. Embora nesses momentos ele se manifesta com mais frequência e,aparentemente,com mais intensidade, surge também nas horas mais atarefadas ou quando estamos em boas ou más companhias. O tédio pode ser tanto a constatação do nada e de ninguém quanto o aviso de que o nada e o ninguém são os fins de toda a ação.
Sentir-se entediado causa angústia no ser humano,pelo fato deste não se conformar com sua natureza vazia e sem sentido. Há milhares de anos,o homem vem tentando mudar sua natureza e encontrar um sentido para sua existência, numa busca incessante que o leva,na maioria das vezes,a um sentimento de frustração,pior que o próprio tédio.
Compramos,vendemos,trabalhamos,trepamos,fumamos,bebemos,escrevemos,brigamos, oramos,tornamos nos incrédulos,enfim, praticamos várias ações que nos preenchem e nos tornam capazes. No entanto,chega um momento em que o tédio e sua inconveniência imanente surge para nos avisar de que nada supera o nada. Não admitimos essa constatação e saímos em busca de um novo “tudo” para nossas vidas.
Vencer o tédio só é possível àquele que o abraça e faz do nada o seu momento de criar. Ou seja, o tédio só é vencido por quem o admira. O filósofo,o ator, o poeta e todas aquelas pessoas que abrigam em si a criatividade e/ou a teoria vencem a nonsense,exaltando esse sentimento . Enquanto,outros procuram ou esperam um meio de vencer seus momentos entediantes, o teórico e o criativo se deixam vencer para derrotar. Não se deve confundir o deixar-se vencer  do criativo e do teórico com o render-se. Render-se é desistir da luta e do prêmio,enquanto o deixar-se vencer teórico e criativo é o saber aproveitar-se do veneno para criar o antídoto.
O homem que contempla o tédio,não  o faz porque gosta de estar entediado, pois se assim fosse, estaria sempre evocando esse sentimento que está nas profundezas de todo ser  senciente. A admiração pelo tédio é,em primeiro lugar, a constatação de que o tudo e o algo são disfarces do nada que,por muitas vezes,revela-se a nós em sua forma original.Em segundo lugar,o admirador do tédio sabe que qualquer apreciação engana o momento entediante,inclusive a apreciação por esse momento.


Abraços.
Marcelo Maia Gomes

Licenciado em Filosofia pelo Centro Universitário Claretiano de Belo Horizonte.