terça-feira, 3 de março de 2015

O Desespero

No meu texto anterior,sobre o tédio, eu falei sobre a busca  incessante do homem por um sentido na vida e sua frustração ao perceber que por mais que tente se preencher, ele viverá momentos vazios que,na verdade, é a essência natural de todo ser senciente. Esse encontro com sua própria natureza de Nada é o sentimento chamado “Tédio”, insuportável por todos nós por não aceitarmos que somos vazios.
Há um outro sentimento na vida do homem, contrário ao Tédio;o Desespero,que é a insuportalidade diante do “Algo” ou do Tudo. Não uso o termo para designar a falta de esperança, mas para denominar o momento em que o ser humano constata sua incapacidade diante do Algo ou do Tudo.
Sentimos o Desespero quando nos defrontamos com a presença incômoda( aquilo que nos perturba) ou com a ausência frustrante (quando  perdemos ou não conseguimos o que nos conforta). Essas duas formas são dependentes mútua, pois só queremos nos livrar de algo para conquistar  outro algo e vice-versa. O sentimento de Desespero tem um precursor chamado Incapacidade. Ao se sentir incapaz de solucionar seus problemas, o ser humano sente o peso do Desespero. 
Um homem casado e pai de três crianças sai cedo para procurar serviço.Vai em várias empresas e, em nenhuma delas, é contratado. Ele volta para casa  vencido pela sua incapacidade de conseguir algo que o conforta(emprego) para eliminar algo que o perturba ( miséria).
É bom frisar que, em alguns casos, a capacidade de se obter ou  de se livrar do algo está em si mesmo,mas no outro. Um homem que sai à procura de um serviço  não depende apenas de sua capacidade intelectual e física, mas também da aceitação do responsável pela contratação de funcionários .O outro é aquilo que impede ou permite  ao sujeito concretizar seu ideal, podendo ser outras pessoas, fenômenos da natureza,doenças,sentimentos e qualquer outra coisa que fique entre a ideia e a realização.
 O Desespero age de forma agressiva na mente de sua víima, exigindo dela uma atitude que o elimine,pois é um sentimento suicída que não se suporta. Enquanto o Tédio é imanente ao homem,o Desespero é o reflexo cruel do mundo externo que se aloja no mundo particular de cada pessoa,por isso o desesperado quer a eliminação dos fatores externos que lhe causaram o sentimento. Essa eliminação,muitas vezes,é a prática de atos como roubos,assassinatos,estupro,guerras e suicídio ou menos atrozes como bebedeiras,uso de drogas ilícitas,prazeres sexuais e,até mesmo,atos aparentemente sensatos como o ingresso em uma religião(ou apenas o apego ao sobrenatural),um novo relacionamento( no caso de uma rejeição amorosa),a troca de um emprego por outro,etc.Qualquer forma de eliminação externa do Desespero é irracional,independente de ser ou não atroz. O desesperado é o homem que se perde à noite em uma mata fechada e cheia de armadilhas. Na ânsia de escapar daquele local,ele caminha olhando apenas para frente e não olha para os lados nem para baixo ou para cima e de repente,cai em uma armadilha,que o impossibilita,ainda mais, de encontrar a saída.O homem perdido na mata que se acalma e espera o dia amanhecer para procurar a saída,olhando cuidadosamente para todos os lados, tem mais chances de chegar a estrada. 
O homem que,mesmo desesperado, aproveita dos seus escassos momentos de raciocínio terá mais chances de encontrar a solução e,menos chances de se arrepender de seus atos no futuro. O seu momento de raciocínio no Desespero se assemelha ao amanhecer na mata e ele deve aproveitar essa luz para sair dessa situação. Se ficar parado,a noite chega novamente e prolongará sua estadia no Desespero. Assim como a saída da mata está na própria mata e não na estrada(pois nesta está a entrada), a eliminaçao do Desespero está no próprio homem e não nos fatores externos(que são as entradas ). 
Abraços.

Marcelo Maia Gomes
Licenciado em Filosofia pelo CEUCLAR

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