domingo, 30 de outubro de 2016

A Voz dos Imbecis

          A internet é hoje, sem sombra de dúvida, o meio de comunicação mais popular  e o mais completo do mundo. Entre inúmeras vantagens, o acesso a essa mídia possibilita que seu usuário seja, além de público, o próprio astro do espetáculo. Todos têm a chance de  divulgar suas ideias e opiniões e mostrar seus  talentos para um público bem maior que apenas amigos e familiares Isso graças às redes sociais como o Facebook ou canais de vídeos como o YouTube .
No entanto, nem tudo são flores na internet e como disse Umberto Eco, poucos meses antes de sua morte, “as redes sociais dão o direito à palavra a uma legião de imbecis que antes eram ouvidos apenas nos bares após tomarem umas e outras, sem prejudicar a coletividade”.
Concordo com o autor de “O Nome da Rosa”, afinal  ao abrir a porta para os talentosos, a internet não a fecha, possibilitando assim a entrada dos imbecis que encontraram um meio de levarem suas idiotices para além dos ouvidos de seus amigos de copo Basta criar uma conta no Facebook, outra no Twitter e mais uma no YouTube e qualquer imbecil está pronto para jogar a merda no ventilador.
O imbecil da internet é “conhecedor” de todos os assuntos e está convicto que suas opiniões são extremamente relevantes para a sociedade, por isso se sente na obrigação de compartilhá-las. Após uma rápida pesquisa no Google, ele já se sente capaz de elogiar e descer o pau em filmes, músicas e espetáculos, muitos dos quais o imbecil não conhece mais que o título. Embora seja um excelente crítico de arte, suas grandes paixões são Teologia, Sociologia, Filosofia e, principalmente, Política.
Como não quer ser um alienado e, muito menos, ser chamado de isentão, o “incrível colunista” decide sua posição política no “cara e coroa”. Com um vasto conhecimento wikipédico , o analista político das redes sociais não analisa porra nenhuma, simplesmente defende, calorosamente, sua posição política que foi escolhida por uma moeda de cinquenta centavos.
Outra característica dos doutores das redes sociais é o amor por debates. Imbecis oponentes se encontram geralmente no You Tube, e se agridem com os palavrões da atualidade: bolivariano, bolsominion, neoateu toddynho, seguidor do deus das lacunas, esquerdopata, coxinha, massa de manobra. Sinto até saudades dos palavrões antigos. Porém, não são apenas xingamentos que há nesses debates, afinal todos esses sábios são graduados, mestrados e doutorados pela incrível Universidade Wikipédia. Sendo assim, através dos debates, os imbecis têm a oportunidade de expor seus conhecimentos sobre diversas áreas do saber, principalmente Teologia, Filosofia, Física, História e Política. O pior é que vão conquistando seguidores, que também passam a divulgar suas ideias e conhecimentos adquiridos com seus mestres. É a proliferação da desinformação e da imbecilidade.
Como os imbecis estão usando o mesmo meio de comunicação que aqueles que realmente sabem o que dizem, fica difícil discernir quem é quem sem avaliar o que está sendo dito. Então, pesquise, compare e julgue  o que lê e ouve ou corra o risco de se tornar eco da voz dos imbecis.

Até a próxima
Marcelo Maia Gomes
Licenciado em Filosofia pelo Ceuclar


segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Conhecimentos Linguísticos de um Sábio-Burro


Existe coisa pior que conversar com um burro? Pode parecer que não, mas se tem algo que me irrita mais que uma conversa com um estúpido ignorante é um diálogo com um burro que se considera sábio. O “sábio-burro” é o cara que aprende alguma coisa na internet, na televisão ou em qualquer outra mídia e fica ansioso para demonstrar seu conhecimento, afinal quer mostrar que não é tão imbecil como os outros pensam. No entanto, o sábio-burro não sabe que há hora e lugar certo para tudo, inclusive para expor o que se sabe. São tantas besteiras que saem da boca de um desses sujeitos que apenas um terço delas já seria assunto para um livro, por isso nos parágrafos seguintes apresentarei apenas alguns “conhecimentos” etimológicos do burro-sábio.
Para começar, o próprio termo que uso aqui para defini-los já é um bom motivo para um sábio-burro  querer mostrar seus “conhecimentos” linguísticos.  Para aparecer e por se achar inteligente, começa a dissertar sobre o animal quadrúpede:
“Há há há!—o sábio-burro adora rir antes de suas explicações intelectuais— o burro é um animal inteligentíssimo, pois se souber que há um perigo adiante, ele não prossegue em sua caminhada.”  É claro que até um sábio-burro sabe que a palavra “burro” é usada como um termo pejorativo  para se referir a pessoas com pouco conhecimento em uma ou mais área. Portanto, sua intenção não é instruir, e sim aproveitar a oportunidade para mostrar sua “grande sabedoria”, mas nem sequer sabe que os ignorantes como ele são chamados de burros porque empacam em uma ideia, o que os impedem de ultrapassar o nível intelectual em que se encontram.
Irritante mesmo é quando o sábio-burro decide mostrar seu conhecimento sobre a origem das palavras, mas não com a intenção de satisfazer a curiosidade de alguém, e sim porque quer refutar um argumento ou, como já foi dito anteriormente, para mostrar que é o sabedor de tudo.  Se ele fica sabendo que uma pessoa não crê em divindades, não hesita em perguntar qual a religião de tal pessoa só para ouvir a palavra “ateu” e começar com sua aula de etimologia:
“Há há há!  A palavra “ateu” vem do Grego “atheos” que significa " o que nega e abandona os deuses". Sendo assim, se você nega ou abandona um deus significa que você acredita em sua existência, pois como negaria ou abandonaria o que não existe?”
Por falar em religião, o nosso “amigo sábio” também não perde tempo quando escuta tal palavra e já vem com aquele  blá blá blá de que o termo tem origem em “religare”, que em latim quer dizer religar, reatar. Ainda no campo religioso, ele vai dizer que você não frequenta igreja, pois a igreja é a própria pessoa, afinal ela tem origem na palavra grega "ekkyesia" que significava simplesmente um ajuntamento do povo. Haja paciência!
O que esse “inteligente” ignora é que a linguagem é algo dinâmico e que com o tempo as palavras adquirem novas formas, novos significados e suas origens não anulam o que elas expressam posteriormente.

Controle-se quando estiver próximo a um desses “etimólogos” e um de seus dedos do pé bater em um móvel, porque se você gritar aquele palavrão, certamente irá ouvir que “ o que você disse é uma caixinha redonda usada para guardar rapé”.

Até a próxima.




Marcelo Maia Gomes
Licenciado em Filosofia pelo Ceuclar

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

O Isentão



Desde criança aprendemos que nossas atitudes são boas ou são más, certas ou erradas,aquilo que temos se não é bonito, é feio; se não amo algo, significa que o odeio. Crescemos com essa ideia de que há apenas duas maneiras de se ver algo. Isso se chama “polaridade”.
Porém, há um imenso continente de opiniões entre o bem e o mal, o feio e o belo  e um largo oceano de sentimentos entre o ódio e o amor, a desgraça e a felicidade, mas muitos preferem chamar de muro àquilo que não é polo, por isso dizem que quem fica fora de um deles está em cima do muro, ou como se diz atualmente no Brasil: “ é o isentão”.
O isentão é um termo pejorativo usado para definir  alguém que não se rotula “de direita” e nem “de esquerda”.  Não apoia a corrupção do PT, mas também não é seduzido pelos discursos morais da família Bolsonaro¹. Ao mesmo tempo, o isentão tem algumas opiniões que são compatíveis com a “direita” e já outras que estão de acordo com  a “ esquerda”.  Poderíamos, então, chamá-lo de um sujeito sem personalidade própria ou de “Maria vai com as outras”?  Ao contrário, afinal ele não se sente obrigado a aceitar ou rejeitar uma opinião apenas por fidelidade a uma ideologia e isso o torna muito mais capaz de avaliar o que está sendo proposto para o país
Apesar do termo "isentão" representar o que eu disse no parágrafo anterior, os "engajados"  o usam para dizer que quem não está em nenhum dos polos é alienado e omisso aos assuntos políticos, afinal a polaridade não permite a escolha de apenas alguns bombons, mas obriga que se escolha entre levar todos da caixa ou não comer nenhum.

¹Não estou dizendo que a esquerda e a direita brasileiras têm como representantes apenas PT e Bolsonaros,respectivamente. Apenas os citei como exemplos de opiniões antagônicas.

Até a próxima.


Marcelo Maia Gomes
Licenciado em Filosofia pelo Ceuclar