quarta-feira, 22 de maio de 2019

Apaixonado ou Escravo do Ideal?





Na juventude, o filósofo francês René Descartes (1596 – 1650), apaixonou-se por uma garota estrábica e, a partir dessa paixão, o pai da filosofia moderna criou a mulher de seu sonho e durante muito tempo não se interessou por qualquer mulher que não fosse vesga. Essa obsessão permaneceu com o filósofo, até ele concluir que seu gosto romântico nada mais era que uma criação de sua mente e que para vencê-lo seria necessário usar seu raciocínio lógico e seu livre arbítrio contra si mesmo.
Assim como Descartes, muitas pessoas têm esperado o homem ou a mulher ideal, na maioria das vezes, criado pela mente na puberdade, período em que o corpo se transforma originando desejos sexuais e a mente indica que necessitamos do outro―física e/ou mentalmente― para satisfazermos esses desejos. Porém, diferente dos outros animais, os seres humanos desenvolveram um sentimento, além da simples satisfação sexual, que chamamos de atração física, paixão, romance ou amor.
Com o corpo preparado para receber outro corpo e uma mente diferenciada da dos animais, o adolescente se apaixona pela primeira vez. Essa entrada do homem e da mulher no mundo romântico acontece na maioria das vezes através da admiração pelo físico e/ou pelo caráter de alguém próximo como um vizinho, amigo ou até mesmo um parente. Porém, a primeira paixão pode, também, ser alguém além do alcance do apaixonado como uma celebridade real ou um personagem fictício. E é exatamente esse primeiro ser amado que vai formar na mente do amante, a imagem de seu parceiro romântico perfeito.
Porém, o romance com a primeira pessoa amada nem sempre é concretizado ou, quando é, não permanece durante a vida inteira. Sendo assim, o amante rejeitado sai em busca de alguém que tenha as mesmas características daquela imagem fixa em sua mente. A imagem que convence que apenas alguém como ela possa lhe trazer a felicidade espiritual e a satisfação de seus desejos físicos e sexuais.
Na esperança de encontrarmos a pessoa ideal para se amar, passamos a  descartar da nossa vida romântica, pessoas maravilhosas e incríveis com quem poderíamos viver um grande amor real. No entanto, nenhuma delas possui as características do parceiro ideal, pintado em um quadro, cujas cópias estão pregadas em todas as paredes de nossa mente.
 Nem sempre a pintura do parceiro ideal é um corpo completo. Em alguns casos, no quadro criado pela mente romântica da adolescência, há apenas um par de olhos de uma determinada cor, um conjunto de músculos bem definidos ou seios rígidos e volumosos, entre outras características físicas. 
Há também, em número bem menor, aqueles, para os quais as qualidades do amado perfeito não está matéria, e sim no intelecto, na alma. Não há vantagem alguma nisso; os amantes do espírito tornam-se tão cegos e solitários quanto os materialistas. 
Ambos são escravos de uma ilusão e estão sempre reclamando, dizendo que não encontram alguém para amar e fazê-las felizes. Porém, na verdade, já encontraram, mas as comparações com a imagem fixa na sua mente impedem que qualquer relacionamento ocorra ou, caso ocorra, que não seja duradouro.
Em “Blues da Piedade”, do álbum Ideologia (1988), Cazuza (1958-1990) diz que devemos pedir a Deus piedade "pra quem não sabe amar e fica esperando alguém que caiba no seu sonho”.  Nesse trecho, o compositor está se referindo claramente a pessoas como o filósofo Descartes, que se tornaram escravas do ideal e dão as costas para o real bem ali, diante delas. Sim, essas pessoas são dignas de piedade, de compaixão e precisam, assim como Descartes, usarem a inteligência para destruir essa imagem que os impede de sorrir, de abraçar, de beijar e de gozar.
Não estou dizendo que devemos nos entregar a qualquer romance por uma carência física ou para suprir a falta de alguém. De forma alguma devemos fazer tal crueldade conosco e com os outros. A minha intenção neste texto é exatamente o contrário, ou seja, alertar sobre os males do "romance ideal" que, muitas vezes, nos impede de vivermos um romance real e prazeroso, mental e fisicamente.


Até a próxima.

Marcelo Maia
Licenciado em Filosofia pelo CEUCLAR-BH.