segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Conhecimentos Linguísticos de um Sábio-Burro


Existe coisa pior que conversar com um burro? Pode parecer que não, mas se tem algo que me irrita mais que uma conversa com um estúpido ignorante é um diálogo com um burro que se considera sábio. O “sábio-burro” é o cara que aprende alguma coisa na internet, na televisão ou em qualquer outra mídia e fica ansioso para demonstrar seu conhecimento, afinal quer mostrar que não é tão imbecil como os outros pensam. No entanto, o sábio-burro não sabe que há hora e lugar certo para tudo, inclusive para expor o que se sabe. São tantas besteiras que saem da boca de um desses sujeitos que apenas um terço delas já seria assunto para um livro, por isso nos parágrafos seguintes apresentarei apenas alguns “conhecimentos” etimológicos do burro-sábio.
Para começar, o próprio termo que uso aqui para defini-los já é um bom motivo para um sábio-burro  querer mostrar seus “conhecimentos” linguísticos.  Para aparecer e por se achar inteligente, começa a dissertar sobre o animal quadrúpede:
“Há há há!—o sábio-burro adora rir antes de suas explicações intelectuais— o burro é um animal inteligentíssimo, pois se souber que há um perigo adiante, ele não prossegue em sua caminhada.”  É claro que até um sábio-burro sabe que a palavra “burro” é usada como um termo pejorativo  para se referir a pessoas com pouco conhecimento em uma ou mais área. Portanto, sua intenção não é instruir, e sim aproveitar a oportunidade para mostrar sua “grande sabedoria”, mas nem sequer sabe que os ignorantes como ele são chamados de burros porque empacam em uma ideia, o que os impedem de ultrapassar o nível intelectual em que se encontram.
Irritante mesmo é quando o sábio-burro decide mostrar seu conhecimento sobre a origem das palavras, mas não com a intenção de satisfazer a curiosidade de alguém, e sim porque quer refutar um argumento ou, como já foi dito anteriormente, para mostrar que é o sabedor de tudo.  Se ele fica sabendo que uma pessoa não crê em divindades, não hesita em perguntar qual a religião de tal pessoa só para ouvir a palavra “ateu” e começar com sua aula de etimologia:
“Há há há!  A palavra “ateu” vem do Grego “atheos” que significa " o que nega e abandona os deuses". Sendo assim, se você nega ou abandona um deus significa que você acredita em sua existência, pois como negaria ou abandonaria o que não existe?”
Por falar em religião, o nosso “amigo sábio” também não perde tempo quando escuta tal palavra e já vem com aquele  blá blá blá de que o termo tem origem em “religare”, que em latim quer dizer religar, reatar. Ainda no campo religioso, ele vai dizer que você não frequenta igreja, pois a igreja é a própria pessoa, afinal ela tem origem na palavra grega "ekkyesia" que significava simplesmente um ajuntamento do povo. Haja paciência!
O que esse “inteligente” ignora é que a linguagem é algo dinâmico e que com o tempo as palavras adquirem novas formas, novos significados e suas origens não anulam o que elas expressam posteriormente.

Controle-se quando estiver próximo a um desses “etimólogos” e um de seus dedos do pé bater em um móvel, porque se você gritar aquele palavrão, certamente irá ouvir que “ o que você disse é uma caixinha redonda usada para guardar rapé”.

Até a próxima.




Marcelo Maia Gomes
Licenciado em Filosofia pelo Ceuclar

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