domingo, 19 de abril de 2015

Máscaras Sociais

            Durante a semana, acordo às 7 da manhã e saio ás 8 para dar aulas particulares. No caminho, cumprimento minha vizinha que está varrendo a calçada de sua casa e, algumas vezes, paro para conversar um pouco com ela. Prossigo na minha caminhada, saudando algumas crianças que já estão brincando na rua. Chego à casa de meu primeiro aluno, filho de evangélicos. Saúdo-os e inicio a aula de reforço. Pergunto quais as dificuldades e na medida do possível, vou tentando solucioná-las. Por serem evangélicos, policio-me ao máximo no meu modo de agir e falar. Uma hora depois, dirijo-me à casa de outra aluna, de família católica. Na parede e na estante, quadros  e imagens de santos. Ao contrário da primeira contratante, a segunda é bem comunicativa e  até compartilhamos alguns assuntos pessoais. Ás 11,volto pra casa, ligo meu  aparelho de som e ouço as músicas que gosto, sempre cantando a minha maneira. De repente, o celular toca; ou é minha sobrinha ou é uma amiga do Rio. Para cada uma delas, tenho um tipo diferente de conversa.
Até aqui, descrevi várias fases da minha vida, ocorridas em pouco mais de cinco horas. Para cada uma dessas fases, há uma máscara diferente. No  decorrer da minha vida, já usei, uso e usarei muitas outras; caso contrário, terei que viver isolado em uma redoma.
 Já ouvi, não raras vezes, algumas pessoas dizendo que demonstram o que realmente elas  são. Eu fico me perguntando: o que é demonstrar o que realmente se é? Seria uma pessoa totalmente desnuda de máscaras sociais? E isso é possível? Talvez essa possibilidade tenha existido nos primórdios da humanidade, quando o homem, no seu estado de natureza ,seguia apenas seus instintos básicos para a sobrevivência.
                Desde que o homem saiu de seu estado natural para o estado de civilização, surgiu a necessidade de se usar máscaras. Assim como há uma roupa para cada ocasião, há também um tipo de personalidade(máscara) para cada situação ,local e pessoa. Além das nossas características psicológicas e físicas já formadas pelo tempo, criamos características momentâneas para nos apresentarmos perante o  outro.  São as máscaras sociais, que vestimos para esconder o nosso natural e nos proteger do natural do outro. 
                A máscara social é uma maneira do eu refletir  para o outro o que se vê nele, causando uma familiaridade entre dois ou mais estranhos.  Um homem comum usará a máscara de  cliente de um banco para conversar com o gerente  deste banco . Fora do banco, em um bar com amigos usará outra máscara e em um consultório médico se vestirá de paciente .Da mesma forma, o gerente do banco ,o médico e os amigos boêmios usarão diversas máscaras sociais, dependendo da situação e da pessoa com quem estão relacionando
Existem diversos seres  em nós ,que vão surgindo de  acordo com as situações . Há o ser interno, escondido pela máscara social, há o ser visto pelo outro e o ser que o eu se vê no outro. Da mesma forma, o outro depende do eu para saber que tipo máscara irá usar.
 Então, nunca somos verdadeiros? Ao contrário, somos vários verdadeiros. Dizer que alguém não  tem personalidade leva em conta um conceito do senso comum e não tem nenhum fundamento científico ou filosófico.  Dizer que alguém não tem personalidade é negar as máscaras sociais  e se afirmar como alguém que anda com uma radiografia psicológica mostrando para todos o que realmente é; mas, afinal, o que realmente somos?
Se alguém me pergunta quem eu sou ,tenho várias respostas: “Sou Marcelo, filho de Fortunato e Célia, licenciado em Filosofia, poeta, blogueiro, pai do Klaus, tio da Tatá, apaixonado por Fulana, fã do Pink Floyd, cliente de um banco, freguês de um supermercado, convidado de uma festa, espectador de uma peça, etc. 
São várias respostas para uma pergunta só, várias definições para Marcelo Maia Gomes.  Entretanto, qual dessas é a minha PERSONALIDADE sem máscara? Qual dessas personalidades não foram formadas a partir do meu convívio com o outro e por estar diante de uma situação?
Não há resposta para isso, pois todas as personalidades são influenciáveis e adaptáveis ao momento; todas elas não passam de máscaras de conveniência. Mesmo, aquele que diz  expor  o que há no seu interior, depende do outro para essa exposição.
Para Sartre, o outro é o espelho para o indivíduo e a partir dessa intersubjetividade definimos nosso eu de acordo com a situação ,momento e local. O outro que está diante de mim influencia o meu eu. Se estou diante de uma pessoa religiosa ,minha consciência prevê as consequências de eu me assumir como um ateu e, da mesma maneira, o religioso se prepara interiormente para tentar me convencer da existência de Deus. Escolhemos, então, que máscaras usaremos; a do debate sobre a existência ou não de um ser supremo ou discursaremos sobre futebol. Ou seja, o eu  não se define sem o outro.
A  partir do outro, o indivíduo se torna vários eus, que muitas vezes entram em conflitos, fazendo com que nossa consciência nos acuse de hipócritas. Porém, o que é a hipocrisia, senão uma máscara social, que vestimos para  protegermos  e escondermos o nosso Eu?  Então, o que na verdade é o EU? Um ser dotado de características próprias ou um ser refletindo a imagem do outro, que por sua vez reflete a imagem do eu? Há uma existência isolada ou toda existência é dependente da outra?

O EU é a própria pessoa, a IDENTIDADE que se resguarda atrás de várias personalidades. O EU é a parte intacta do ser humano, a qual o outro só deve conhecer o mínimo possível. Tudo que o outro conhece do EU são os eus, vestidos de máscaras sociais. Eu sou o estranho para o outro e ele é o estranho para mim, por isso usamos disfarces para nos parecermos familiares um ao outro.

                                                         Abraços
                                     Marcelo Maia
Licenciado em Filosofia pelo CEUCLAR

quarta-feira, 18 de março de 2015

Justiça: um sentimento individual ou uma realidade universal?

    A palavra Justiça nos remete a dois conceitos: um concreto e um abstrato. O conceito concreto é a imagem de um tribunal,composto por um juiz,advogado ,promotor,júri e réu. Já,o abstrato vai mais além; é algo que não se vê,mas se sente e que,muitas vezes,é contrário à justiça dos tribunais e da lei. Muitas vezes, achamos que a lei está sendo injusta,pois não agiu como queríamos. Na tragédia grega Antígona,de Sófocles, os dois irmãos da protagonista se matam mutuamente na disputa pelo trono de Tebas. Com isso,Creontes,tio de Antígona, assume o trono e estipula o sepultamento dos sobrinhos Etéocles e Polinices.O primeiro recebe um sepultamento digno,enquanto o corpo do segundo é jogado em um local para que as aves de rapina e os cães deem conta dele. A irmã dos mortos não concorda com a decisão do tio e sepulta o irmão e,por isso, é condenada morte.
Na obra de Sófocles,encontramos dois conceitos de Justiça; o da lei e o individual. Creontes ,que representa a lei,acha justo que o corpo de Polinices não seja sepultado,pois o sobrinho se aliou aos inimigos de Tebas para vencer Etéocles. Antígona acha que decreto do tio é injusto e contrário às leis divinas. A justiça de Tebas se baseia no bem do Estado e a de Antígona se baseia em seus sentimentos,que ela acredita ser o mesmo dos deuses. Afinal,o que é Justiça?
Quando uma pessoa precisa de alguma coisa, ela vai a um estabelecimento e paga para que aquela mercadoria passe a ser sua. Se sai sem pagar(o que chamamos de furto ou de roubo,dependendo de como o objeto foi retirado), o estabelecimento tem um prejuízo  e  se não leva aquilo pelo que pagou, o prejudicado será o freguês. Semelhante é o sentimento de Justiça. Querer receber algo que possua o valor de algo que se deu. Se alguém acredita estar fazendo o bem, espera receber algo que tambem tenha o valor de bem. Quando alguém faz algo considerado como mal, espera-se que  receba,em troca,algo no valor de mal. Paga se o bem com bem e o mal com mal.Quando o valor do que se recebe não se equipara ao que foi dado ou há ausência do recebimento,surge o sentimento de injustiça. Mas,será que também não se sente injustiçado,o injusto por ser assim chamado? Será que ele também não pensa que está recebendo o mal no lugar do bem que deu? É bom frisar que nem sempre o Outro tem o mesmo conceito de bem que o Eu. Sendo assim, o sentimento de Justiça e o sentimento de Injustiça  podem até ser o mesmo para todos,mas os motivos que despertam esses sentimentos dependem do que é o conceito de bem e o conceito de mal para cada pessoa.
Sócrates foi condenado à morte por contrariar as leis de Atenas, e pouco antes de morrer o filósofo disse que poderia ter evitado a condenação se tivesse desistido da vida justa.Ele era o justo e injusta era a legislação que não estava de acordo com seus interesses.  Mas, não há legislação certa ou errada,justa ou injusta. Existem leis que que estão em harmonia com os desejos de um indivíduo ou de uma sociedade e leis contrárias a esses desejos. Antígona fez justiça ao sepultar o irmão, mas Creontes também estava fazendo justiça quando condenou a sobrinha à morte.Qual dos dois estava sendo justo e quem era o injusto? A resposta vai depender do conceito de bem e do conceito de mal de quem está respondendo.
 Muitas vezes a desarmonia entre as justiças social,indivíduail e legal gera uma sensação doentia de injustiça e a parte injustuçada impõe o seu Bem praticando atos violentos como linchamento, homicídio,genocídio,torturas física e psicológica, ofensa verbal, e até suicídio(pois há aqueles que se matam para que o injusto sinta o peso da culpa sobre si). Há também a violência que não se manifesta em ações,mas fica no pensamento daqueles que acreditam que não receberam o que lhe devem e esperam que um dia o injusto receba o Mal pelo mal. O injustiçado se tortura e se conforta na esperança de que outro recuperará o Bem que lhe é de direito. Não importa o que será esse outro; uma ou mais pessoas,uma força sobrenatural,lei do carma, um acidente,uma doença, uma desilusão ou o remorso. O que importa é que cada um receba o que lhe é devido; Mal por mal e Bem por bem. Termino com uma pergunta: sentimento de Justiça é sinônimo de sentimento de Vingança?

Abraços.

 Marcelo Maia Gomes
Licenciado em Filosofia pelo CEUCLAR

terça-feira, 3 de março de 2015

O Desespero

No meu texto anterior,sobre o tédio, eu falei sobre a busca  incessante do homem por um sentido na vida e sua frustração ao perceber que por mais que tente se preencher, ele viverá momentos vazios que,na verdade, é a essência natural de todo ser senciente. Esse encontro com sua própria natureza de Nada é o sentimento chamado “Tédio”, insuportável por todos nós por não aceitarmos que somos vazios.
Há um outro sentimento na vida do homem, contrário ao Tédio;o Desespero,que é a insuportalidade diante do “Algo” ou do Tudo. Não uso o termo para designar a falta de esperança, mas para denominar o momento em que o ser humano constata sua incapacidade diante do Algo ou do Tudo.
Sentimos o Desespero quando nos defrontamos com a presença incômoda( aquilo que nos perturba) ou com a ausência frustrante (quando  perdemos ou não conseguimos o que nos conforta). Essas duas formas são dependentes mútua, pois só queremos nos livrar de algo para conquistar  outro algo e vice-versa. O sentimento de Desespero tem um precursor chamado Incapacidade. Ao se sentir incapaz de solucionar seus problemas, o ser humano sente o peso do Desespero. 
Um homem casado e pai de três crianças sai cedo para procurar serviço.Vai em várias empresas e, em nenhuma delas, é contratado. Ele volta para casa  vencido pela sua incapacidade de conseguir algo que o conforta(emprego) para eliminar algo que o perturba ( miséria).
É bom frisar que, em alguns casos, a capacidade de se obter ou  de se livrar do algo está em si mesmo,mas no outro. Um homem que sai à procura de um serviço  não depende apenas de sua capacidade intelectual e física, mas também da aceitação do responsável pela contratação de funcionários .O outro é aquilo que impede ou permite  ao sujeito concretizar seu ideal, podendo ser outras pessoas, fenômenos da natureza,doenças,sentimentos e qualquer outra coisa que fique entre a ideia e a realização.
 O Desespero age de forma agressiva na mente de sua víima, exigindo dela uma atitude que o elimine,pois é um sentimento suicída que não se suporta. Enquanto o Tédio é imanente ao homem,o Desespero é o reflexo cruel do mundo externo que se aloja no mundo particular de cada pessoa,por isso o desesperado quer a eliminação dos fatores externos que lhe causaram o sentimento. Essa eliminação,muitas vezes,é a prática de atos como roubos,assassinatos,estupro,guerras e suicídio ou menos atrozes como bebedeiras,uso de drogas ilícitas,prazeres sexuais e,até mesmo,atos aparentemente sensatos como o ingresso em uma religião(ou apenas o apego ao sobrenatural),um novo relacionamento( no caso de uma rejeição amorosa),a troca de um emprego por outro,etc.Qualquer forma de eliminação externa do Desespero é irracional,independente de ser ou não atroz. O desesperado é o homem que se perde à noite em uma mata fechada e cheia de armadilhas. Na ânsia de escapar daquele local,ele caminha olhando apenas para frente e não olha para os lados nem para baixo ou para cima e de repente,cai em uma armadilha,que o impossibilita,ainda mais, de encontrar a saída.O homem perdido na mata que se acalma e espera o dia amanhecer para procurar a saída,olhando cuidadosamente para todos os lados, tem mais chances de chegar a estrada. 
O homem que,mesmo desesperado, aproveita dos seus escassos momentos de raciocínio terá mais chances de encontrar a solução e,menos chances de se arrepender de seus atos no futuro. O seu momento de raciocínio no Desespero se assemelha ao amanhecer na mata e ele deve aproveitar essa luz para sair dessa situação. Se ficar parado,a noite chega novamente e prolongará sua estadia no Desespero. Assim como a saída da mata está na própria mata e não na estrada(pois nesta está a entrada), a eliminaçao do Desespero está no próprio homem e não nos fatores externos(que são as entradas ). 
Abraços.

Marcelo Maia Gomes
Licenciado em Filosofia pelo CEUCLAR

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

O Tédio

Há momentos em que o tudo se manifesta na forma do nada. Ou seja,percebemos que qualquer coisa que fizermos não nos levará a lugar algum além do nosso vazio interior. É o tédio, que não nos ataca somente nos momentos de solidão ou quando não temos nada para fazer. Embora nesses momentos ele se manifesta com mais frequência e,aparentemente,com mais intensidade, surge também nas horas mais atarefadas ou quando estamos em boas ou más companhias. O tédio pode ser tanto a constatação do nada e de ninguém quanto o aviso de que o nada e o ninguém são os fins de toda a ação.
Sentir-se entediado causa angústia no ser humano,pelo fato deste não se conformar com sua natureza vazia e sem sentido. Há milhares de anos,o homem vem tentando mudar sua natureza e encontrar um sentido para sua existência, numa busca incessante que o leva,na maioria das vezes,a um sentimento de frustração,pior que o próprio tédio.
Compramos,vendemos,trabalhamos,trepamos,fumamos,bebemos,escrevemos,brigamos, oramos,tornamos nos incrédulos,enfim, praticamos várias ações que nos preenchem e nos tornam capazes. No entanto,chega um momento em que o tédio e sua inconveniência imanente surge para nos avisar de que nada supera o nada. Não admitimos essa constatação e saímos em busca de um novo “tudo” para nossas vidas.
Vencer o tédio só é possível àquele que o abraça e faz do nada o seu momento de criar. Ou seja, o tédio só é vencido por quem o admira. O filósofo,o ator, o poeta e todas aquelas pessoas que abrigam em si a criatividade e/ou a teoria vencem a nonsense,exaltando esse sentimento . Enquanto,outros procuram ou esperam um meio de vencer seus momentos entediantes, o teórico e o criativo se deixam vencer para derrotar. Não se deve confundir o deixar-se vencer  do criativo e do teórico com o render-se. Render-se é desistir da luta e do prêmio,enquanto o deixar-se vencer teórico e criativo é o saber aproveitar-se do veneno para criar o antídoto.
O homem que contempla o tédio,não  o faz porque gosta de estar entediado, pois se assim fosse, estaria sempre evocando esse sentimento que está nas profundezas de todo ser  senciente. A admiração pelo tédio é,em primeiro lugar, a constatação de que o tudo e o algo são disfarces do nada que,por muitas vezes,revela-se a nós em sua forma original.Em segundo lugar,o admirador do tédio sabe que qualquer apreciação engana o momento entediante,inclusive a apreciação por esse momento.


Abraços.
Marcelo Maia Gomes

Licenciado em Filosofia pelo Centro Universitário Claretiano de Belo Horizonte.