quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

O Mundo sem Mentiras ( Série).


Como seria o mundo, se todos dissessem apenas a verdade?
Inspirado levemente em “O Primeiro Mentiroso”, filme que assisti há alguns anos, resolvi escrever esta série, na qual exponho como imagino algumas situações caso ninguém soubesse mentir.
Nesta primeira parte veremos quatro marcas famosas de bebidas e alimentos anunciando seus produtos com toda a sinceridade que o consumidor merece. Infelizmente, isso nunca acontecerá no mundo real.

Parte 1: Propagandas de algumas marcas famosas num mundo sem mentiras.
DANONINHO
Slogan:  DANONINHO NÃO VALE POR UM BIFINHO NEM POR QUALQUER OUTRO ALIMENTO.
Se você quer prejudicar a saúde de seus filhos, compre Danoninho para eles. Danoninho, assim como qualquer outro petit suisse, é prejudicial à saúde. Em cada potinho a criança ingere 32 % do limite máximo diário de açúcar que ela necessita. Além disso, Danoninho também é um inibidor da absorção do ferro, o que pode causar anemia ferropriva. Compre Danoninho, se você não se importa com a saúde de seus filhos.
COCA COLA
Slogan: SINTA O SABOR, SE VOCÊ TIVER CONDIÇÕES DE PAGAR UM BOM PLANO DE SAÚDE.
Adquira lesões nos ossos, elimine o esmalte de seus dentes, prejudique seu desenvolvimento cerebral abrindo a infelicidade e bebendo seu destruidor líquido. Coca Cola também causa diabetes, inflamação no estômago e hipertensão arterial. Coca Cola é isso aí e muitas outras doenças.
QUALY
Slogan: A QUALIDADE DE VIDA TERMINA COM QUALY.
Qualy e todas as demais margarinas fazem tanto mal quanto o cigarro. Causa disfunções imunológicas; danos no fígado, no pulmão e até mesmo em órgãos reprodutivos.  A Qualy também pode causar câncer e prejudicar a capacidade de raciocínio. Se você quiser ser burro, broxa e morrer de câncer, tudo isso sem fumar, compre Qualy.
SKOL
Slogan: SKOL, A CERVEJA QUE DESCE FORÇADA.
O abuso do álcool aumenta a mortalidade por causar doenças no fígado, câncer e doenças cardiovasculares. Porém, a Skol é diferente, pois além de provocar esses males a sua saúde, ela também trava na garganta e quem a bebe corre o risco de cuspir a bebida em qualquer pessoa que estiver próxima.


Marcelo Maia
Licenciado em Filosofia pelo CEUCLAR.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Antigamente Tudo Era Bom ( Parte I)

Antigamente tudo era bom, o mundo era um verdadeiro Paraíso Celeste com muita alegria, paz e harmonia entre os seres racionais e irracionais, animados e inanimados. Você que tem dez anos ou menos certamente não se lembrará dessa época, pois só a conhece através das palavras de pessoas que tem mais de 15 anos. Os que têm entre 11 e 14, apesar de terem vivido naquela época maravilhosa, não se lembram dela, pois eram muito novos.
Naquele período, que se estende desde a origem da humanidade até dez anos atrás, não havia violência; todos amavam o próximo  e ninguém era inimigo de ninguém. Não havia ladrões; portas e janelas de todas as casas ficavam abertas e só existiam e eram fechadas para nos proteger do frio e da chuva. Ninguém cobiçava ou invejava os bens dos outros a ponto de querer roubá-los. Afinal, não havia necessidade de querer o que não tinha, pois todos tinham tudo o que queria, pois ganhavam muito bem. Ah, que tempo bom!
Não havia ódio entre as pessoas, o que significa que não havia assassinatos e, nem mesmo, agressões físicas. Na verdade, não havia crimes de espécie alguma.  Os policiais daquele tempo existiam apenas para ajudar as pessoas, levando suas pesadas compras (afinal, todo mundo tinha muito dinheiro para comprar o que quisessem) para suas casas. Esses grandes amigos, funcionários públicos de um estado justo e sem desigualdade, também iam atrás de animais que se perdiam de seus donos, ajudavam velhinhos e cegos a atravessarem as ruas, contavam piadas através de um megafone para alegrar a sociedade, enfim, eles não existiam para combater a violência, já que isso não existia. 
 Você, que é jovem atualmente, vive numa época em que delegacias e presídios servem para abrigar criminosos, mas na época em que eu e todos os meus antepassados éramos jovens, as delegacias e presídios eram lugares, onde delegados, detetives, agentes penitenciários e escrivães se reuniam, bebendo suco natural, e se encontravam com policiais militares (soldados, cabos, sargentos, tenentes e demais patentes da polícia fardada) que iam todas as noites às delegacias e presídios para entregar relatórios sobre os auxílios prestados à população e quais piadas foram contadas durante o dia para um povo, já alegre por natureza. 
O nome presídio, naquela época paradisíaca, não tinha nada a ver com “preso” ou “prisão”, mas se originava de “prezado”, pois naquele local estavam os prezados amigos do povo.  Porém, vamos deixar a semântica daquela época para outra ocasião, pois temos assuntos muito mais relevantes para serem tratados neste texto como, por exemplo, a saúde naquela época.
Como não existiam bebidas alcoólicas, nem cigarros nem qualquer outra droga para preencher o vazio existencial (que não existia, pois a vida era plena), a maioria da população morria de causas naturais aos 150 anos, respirando um ar puro e alimentando-se saudavelmente.  Os hospitais só existiam para atender idosos acima de 120 anos e mulheres grávidas. Também não havia mortalidade infantil, já que toda mãe era saudável e só fazia sexo após o casamento com um homem saudável, também virgem até a noite de núpcias.
As crianças, que nasciam saudáveis e felizes, a partir dos três anos de idade brincavam nas ruas até tarde da noite, pois não existiam pedófilos, sequestradores,  nem tiroteios nas ruas. Por falar em tiroteios, as armas só existiam para lançar balas doces e saborosas para as crianças que ficavam nas ruas até duas horas da madrugada e acordavam às seis da manhã, animadíssimas, para irem para a escola, lugar onde havia muito amor e respeito  pelos professores .
Como haviam muitas maravilhas naquela época, resolvi dividir o texto em partes( ainda não sei quantas) e postá-las semanalmente. Nas próximas partes desta série sobre o maravilhoso passado, além de outros assuntos, vamos falar sobre a arte daquela época e como o mal surgiu e se desenvolveu há dez anos.

Marcelo Maia
Licenciado em Filosofia pelo CEUCLAR BH

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Apaixonado ou Escravo do Ideal?





Na juventude, o filósofo francês René Descartes (1596 – 1650), apaixonou-se por uma garota estrábica e, a partir dessa paixão, o pai da filosofia moderna criou a mulher de seu sonho e durante muito tempo não se interessou por qualquer mulher que não fosse vesga. Essa obsessão permaneceu com o filósofo, até ele concluir que seu gosto romântico nada mais era que uma criação de sua mente e que para vencê-lo seria necessário usar seu raciocínio lógico e seu livre arbítrio contra si mesmo.
Assim como Descartes, muitas pessoas têm esperado o homem ou a mulher ideal, na maioria das vezes, criado pela mente na puberdade, período em que o corpo se transforma originando desejos sexuais e a mente indica que necessitamos do outro―física e/ou mentalmente― para satisfazermos esses desejos. Porém, diferente dos outros animais, os seres humanos desenvolveram um sentimento, além da simples satisfação sexual, que chamamos de atração física, paixão, romance ou amor.
Com o corpo preparado para receber outro corpo e uma mente diferenciada da dos animais, o adolescente se apaixona pela primeira vez. Essa entrada do homem e da mulher no mundo romântico acontece na maioria das vezes através da admiração pelo físico e/ou pelo caráter de alguém próximo como um vizinho, amigo ou até mesmo um parente. Porém, a primeira paixão pode, também, ser alguém além do alcance do apaixonado como uma celebridade real ou um personagem fictício. E é exatamente esse primeiro ser amado que vai formar na mente do amante, a imagem de seu parceiro romântico perfeito.
Porém, o romance com a primeira pessoa amada nem sempre é concretizado ou, quando é, não permanece durante a vida inteira. Sendo assim, o amante rejeitado sai em busca de alguém que tenha as mesmas características daquela imagem fixa em sua mente. A imagem que convence que apenas alguém como ela possa lhe trazer a felicidade espiritual e a satisfação de seus desejos físicos e sexuais.
Na esperança de encontrarmos a pessoa ideal para se amar, passamos a  descartar da nossa vida romântica, pessoas maravilhosas e incríveis com quem poderíamos viver um grande amor real. No entanto, nenhuma delas possui as características do parceiro ideal, pintado em um quadro, cujas cópias estão pregadas em todas as paredes de nossa mente.
 Nem sempre a pintura do parceiro ideal é um corpo completo. Em alguns casos, no quadro criado pela mente romântica da adolescência, há apenas um par de olhos de uma determinada cor, um conjunto de músculos bem definidos ou seios rígidos e volumosos, entre outras características físicas. 
Há também, em número bem menor, aqueles, para os quais as qualidades do amado perfeito não está matéria, e sim no intelecto, na alma. Não há vantagem alguma nisso; os amantes do espírito tornam-se tão cegos e solitários quanto os materialistas. 
Ambos são escravos de uma ilusão e estão sempre reclamando, dizendo que não encontram alguém para amar e fazê-las felizes. Porém, na verdade, já encontraram, mas as comparações com a imagem fixa na sua mente impedem que qualquer relacionamento ocorra ou, caso ocorra, que não seja duradouro.
Em “Blues da Piedade”, do álbum Ideologia (1988), Cazuza (1958-1990) diz que devemos pedir a Deus piedade "pra quem não sabe amar e fica esperando alguém que caiba no seu sonho”.  Nesse trecho, o compositor está se referindo claramente a pessoas como o filósofo Descartes, que se tornaram escravas do ideal e dão as costas para o real bem ali, diante delas. Sim, essas pessoas são dignas de piedade, de compaixão e precisam, assim como Descartes, usarem a inteligência para destruir essa imagem que os impede de sorrir, de abraçar, de beijar e de gozar.
Não estou dizendo que devemos nos entregar a qualquer romance por uma carência física ou para suprir a falta de alguém. De forma alguma devemos fazer tal crueldade conosco e com os outros. A minha intenção neste texto é exatamente o contrário, ou seja, alertar sobre os males do "romance ideal" que, muitas vezes, nos impede de vivermos um romance real e prazeroso, mental e fisicamente.


Até a próxima.

Marcelo Maia
Licenciado em Filosofia pelo CEUCLAR-BH.