quarta-feira, 18 de março de 2015

Justiça: um sentimento individual ou uma realidade universal?

    A palavra Justiça nos remete a dois conceitos: um concreto e um abstrato. O conceito concreto é a imagem de um tribunal,composto por um juiz,advogado ,promotor,júri e réu. Já,o abstrato vai mais além; é algo que não se vê,mas se sente e que,muitas vezes,é contrário à justiça dos tribunais e da lei. Muitas vezes, achamos que a lei está sendo injusta,pois não agiu como queríamos. Na tragédia grega Antígona,de Sófocles, os dois irmãos da protagonista se matam mutuamente na disputa pelo trono de Tebas. Com isso,Creontes,tio de Antígona, assume o trono e estipula o sepultamento dos sobrinhos Etéocles e Polinices.O primeiro recebe um sepultamento digno,enquanto o corpo do segundo é jogado em um local para que as aves de rapina e os cães deem conta dele. A irmã dos mortos não concorda com a decisão do tio e sepulta o irmão e,por isso, é condenada morte.
Na obra de Sófocles,encontramos dois conceitos de Justiça; o da lei e o individual. Creontes ,que representa a lei,acha justo que o corpo de Polinices não seja sepultado,pois o sobrinho se aliou aos inimigos de Tebas para vencer Etéocles. Antígona acha que decreto do tio é injusto e contrário às leis divinas. A justiça de Tebas se baseia no bem do Estado e a de Antígona se baseia em seus sentimentos,que ela acredita ser o mesmo dos deuses. Afinal,o que é Justiça?
Quando uma pessoa precisa de alguma coisa, ela vai a um estabelecimento e paga para que aquela mercadoria passe a ser sua. Se sai sem pagar(o que chamamos de furto ou de roubo,dependendo de como o objeto foi retirado), o estabelecimento tem um prejuízo  e  se não leva aquilo pelo que pagou, o prejudicado será o freguês. Semelhante é o sentimento de Justiça. Querer receber algo que possua o valor de algo que se deu. Se alguém acredita estar fazendo o bem, espera receber algo que tambem tenha o valor de bem. Quando alguém faz algo considerado como mal, espera-se que  receba,em troca,algo no valor de mal. Paga se o bem com bem e o mal com mal.Quando o valor do que se recebe não se equipara ao que foi dado ou há ausência do recebimento,surge o sentimento de injustiça. Mas,será que também não se sente injustiçado,o injusto por ser assim chamado? Será que ele também não pensa que está recebendo o mal no lugar do bem que deu? É bom frisar que nem sempre o Outro tem o mesmo conceito de bem que o Eu. Sendo assim, o sentimento de Justiça e o sentimento de Injustiça  podem até ser o mesmo para todos,mas os motivos que despertam esses sentimentos dependem do que é o conceito de bem e o conceito de mal para cada pessoa.
Sócrates foi condenado à morte por contrariar as leis de Atenas, e pouco antes de morrer o filósofo disse que poderia ter evitado a condenação se tivesse desistido da vida justa.Ele era o justo e injusta era a legislação que não estava de acordo com seus interesses.  Mas, não há legislação certa ou errada,justa ou injusta. Existem leis que que estão em harmonia com os desejos de um indivíduo ou de uma sociedade e leis contrárias a esses desejos. Antígona fez justiça ao sepultar o irmão, mas Creontes também estava fazendo justiça quando condenou a sobrinha à morte.Qual dos dois estava sendo justo e quem era o injusto? A resposta vai depender do conceito de bem e do conceito de mal de quem está respondendo.
 Muitas vezes a desarmonia entre as justiças social,indivíduail e legal gera uma sensação doentia de injustiça e a parte injustuçada impõe o seu Bem praticando atos violentos como linchamento, homicídio,genocídio,torturas física e psicológica, ofensa verbal, e até suicídio(pois há aqueles que se matam para que o injusto sinta o peso da culpa sobre si). Há também a violência que não se manifesta em ações,mas fica no pensamento daqueles que acreditam que não receberam o que lhe devem e esperam que um dia o injusto receba o Mal pelo mal. O injustiçado se tortura e se conforta na esperança de que outro recuperará o Bem que lhe é de direito. Não importa o que será esse outro; uma ou mais pessoas,uma força sobrenatural,lei do carma, um acidente,uma doença, uma desilusão ou o remorso. O que importa é que cada um receba o que lhe é devido; Mal por mal e Bem por bem. Termino com uma pergunta: sentimento de Justiça é sinônimo de sentimento de Vingança?

Abraços.

 Marcelo Maia Gomes
Licenciado em Filosofia pelo CEUCLAR

terça-feira, 3 de março de 2015

O Desespero

No meu texto anterior,sobre o tédio, eu falei sobre a busca  incessante do homem por um sentido na vida e sua frustração ao perceber que por mais que tente se preencher, ele viverá momentos vazios que,na verdade, é a essência natural de todo ser senciente. Esse encontro com sua própria natureza de Nada é o sentimento chamado “Tédio”, insuportável por todos nós por não aceitarmos que somos vazios.
Há um outro sentimento na vida do homem, contrário ao Tédio;o Desespero,que é a insuportalidade diante do “Algo” ou do Tudo. Não uso o termo para designar a falta de esperança, mas para denominar o momento em que o ser humano constata sua incapacidade diante do Algo ou do Tudo.
Sentimos o Desespero quando nos defrontamos com a presença incômoda( aquilo que nos perturba) ou com a ausência frustrante (quando  perdemos ou não conseguimos o que nos conforta). Essas duas formas são dependentes mútua, pois só queremos nos livrar de algo para conquistar  outro algo e vice-versa. O sentimento de Desespero tem um precursor chamado Incapacidade. Ao se sentir incapaz de solucionar seus problemas, o ser humano sente o peso do Desespero. 
Um homem casado e pai de três crianças sai cedo para procurar serviço.Vai em várias empresas e, em nenhuma delas, é contratado. Ele volta para casa  vencido pela sua incapacidade de conseguir algo que o conforta(emprego) para eliminar algo que o perturba ( miséria).
É bom frisar que, em alguns casos, a capacidade de se obter ou  de se livrar do algo está em si mesmo,mas no outro. Um homem que sai à procura de um serviço  não depende apenas de sua capacidade intelectual e física, mas também da aceitação do responsável pela contratação de funcionários .O outro é aquilo que impede ou permite  ao sujeito concretizar seu ideal, podendo ser outras pessoas, fenômenos da natureza,doenças,sentimentos e qualquer outra coisa que fique entre a ideia e a realização.
 O Desespero age de forma agressiva na mente de sua víima, exigindo dela uma atitude que o elimine,pois é um sentimento suicída que não se suporta. Enquanto o Tédio é imanente ao homem,o Desespero é o reflexo cruel do mundo externo que se aloja no mundo particular de cada pessoa,por isso o desesperado quer a eliminação dos fatores externos que lhe causaram o sentimento. Essa eliminação,muitas vezes,é a prática de atos como roubos,assassinatos,estupro,guerras e suicídio ou menos atrozes como bebedeiras,uso de drogas ilícitas,prazeres sexuais e,até mesmo,atos aparentemente sensatos como o ingresso em uma religião(ou apenas o apego ao sobrenatural),um novo relacionamento( no caso de uma rejeição amorosa),a troca de um emprego por outro,etc.Qualquer forma de eliminação externa do Desespero é irracional,independente de ser ou não atroz. O desesperado é o homem que se perde à noite em uma mata fechada e cheia de armadilhas. Na ânsia de escapar daquele local,ele caminha olhando apenas para frente e não olha para os lados nem para baixo ou para cima e de repente,cai em uma armadilha,que o impossibilita,ainda mais, de encontrar a saída.O homem perdido na mata que se acalma e espera o dia amanhecer para procurar a saída,olhando cuidadosamente para todos os lados, tem mais chances de chegar a estrada. 
O homem que,mesmo desesperado, aproveita dos seus escassos momentos de raciocínio terá mais chances de encontrar a solução e,menos chances de se arrepender de seus atos no futuro. O seu momento de raciocínio no Desespero se assemelha ao amanhecer na mata e ele deve aproveitar essa luz para sair dessa situação. Se ficar parado,a noite chega novamente e prolongará sua estadia no Desespero. Assim como a saída da mata está na própria mata e não na estrada(pois nesta está a entrada), a eliminaçao do Desespero está no próprio homem e não nos fatores externos(que são as entradas ). 
Abraços.

Marcelo Maia Gomes
Licenciado em Filosofia pelo CEUCLAR