Há momentos em que o tudo se
manifesta na forma do nada. Ou seja,percebemos que qualquer coisa que fizermos
não nos levará a lugar algum além do nosso vazio interior. É o tédio, que não
nos ataca somente nos momentos de solidão ou quando não temos nada para
fazer. Embora nesses momentos ele se manifesta com mais frequência
e,aparentemente,com mais intensidade, surge também nas horas mais atarefadas ou
quando estamos em boas ou más companhias. O tédio pode ser tanto a constatação
do nada e de ninguém quanto o aviso de que o nada e o ninguém são os fins de
toda a ação.
Sentir-se entediado causa
angústia no ser humano,pelo fato deste não se conformar com sua natureza vazia
e sem sentido. Há milhares de anos,o homem vem tentando mudar sua natureza e
encontrar um sentido para sua existência, numa busca incessante que o leva,na
maioria das vezes,a um sentimento de frustração,pior que o próprio tédio.
Compramos,vendemos,trabalhamos,trepamos,fumamos,bebemos,escrevemos,brigamos, oramos,tornamos nos incrédulos,enfim, praticamos várias ações
que nos preenchem e nos tornam capazes. No entanto,chega um momento em
que o tédio e sua inconveniência imanente surge para nos avisar de que nada
supera o nada. Não admitimos essa constatação e saímos em busca de um novo “tudo”
para nossas vidas.
Vencer o tédio só é possível
àquele que o abraça e faz do nada o seu momento de criar. Ou seja, o tédio só é
vencido por quem o admira. O filósofo,o ator, o poeta e todas aquelas pessoas
que abrigam em si a criatividade e/ou a teoria vencem a nonsense,exaltando esse
sentimento . Enquanto,outros procuram ou esperam um meio de vencer seus momentos
entediantes, o teórico e o criativo se deixam vencer para derrotar. Não se deve confundir o deixar-se vencer do criativo e do teórico com o render-se. Render-se
é desistir da luta e do prêmio,enquanto o deixar-se vencer teórico e criativo é o saber
aproveitar-se do veneno para criar o antídoto.
O homem que contempla o
tédio,não o faz porque gosta de estar
entediado, pois se assim fosse, estaria sempre evocando esse sentimento que está nas profundezas de todo ser senciente. A admiração pelo tédio é,em primeiro lugar, a constatação
de que o tudo e o algo são disfarces do nada que,por muitas vezes,revela-se a
nós em sua forma original.Em segundo lugar,o admirador do tédio sabe que qualquer
apreciação engana o momento entediante,inclusive a apreciação por esse momento.
Abraços.
Marcelo Maia Gomes
Licenciado em Filosofia pelo Centro Universitário
Claretiano de Belo Horizonte.